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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-09-07
Updated:
2025-09-07
Words:
8,570
Chapters:
3/36
Comments:
4
Kudos:
41
Bookmarks:
4
Hits:
1,046

Gotham está em chamas.

Summary:

Gotham está afundando e Batman está sangrando.
Três anos após a enchente, os Filhos de Gotham, um grupo neo-nazista com recursos misteriosos, ameaçam a cidade.
Bruce luta sozinho, até que Clark Kent chega: obstinadamente honesto, irresistivelmente atraente, e cheio de perguntas que Bruce não consegue responder.
Quando os perigos se tornam grandes demais para uma cidade, Batman se vê forçado a unir forças com Superman.
Salvar Gotham é difícil.
Deixar alguém ajudar? Mais ainda.

Notes:

Na nota original, a autora afirma que não utiliza inteligência artificial em sua escrita. Ela explica que todo o processo — desde a criação da trama, rascunho, revisões e edições — é feito por ela mesma, com dedicação e experiência acumulada em mais de dez anos escrevendo. A autora reforça que entende as preocupações sobre o uso de IA, mas pede respeito e confiança em seu trabalho.

A tradução desta obra para o português do Brasil está sendo feita por mim, e todos os créditos serão devidamente dados à autora (istayniche), que colocou muito carinho e dedicação neste trabalho. Espero que os leitores apreciem a história tanto quanto nós apreciamos trazê-la para vocês.

Chapter 1: Capítulo 1

Chapter Text

A multidão avançou, uma onda de corpos colidindo contra a muralha de escudos, seus gritos por justiça se transformando em clamores desesperados. Faltavam segundos para a revolta explodir.

Era hora de agir.


A água era seda negra e gelada.

Ela se enroscava em seu pescoço. Um último abraço de amante. Puxava-o para o coração silencioso da enchente. Os pecados de Gotham, transformados em líquido, enchiam sua boca, sua garganta, seus pulmões. Não havia luta. O instinto de resistir, o desespero de arranhar em direção a uma superfície que já não existia, tinha se esvaído dele apenas instantes antes.

Tudo o que restava era a rendição.

Ele não era o Morcego. Não havia placas de armadura para arrastá-lo para baixo, nem capuz para se inundar, nem capa para enredá-lo e afogá-lo como uma besta presa em rede. Ele era apenas Bruce. Um homem de camisa rasgada e calças, um corpo marcado por velhas dores, agora afundando em uma nova e definitiva tumba. A pressão latejava por trás dos olhos. Seus membros eram coisas pesadas, sem ossos, à deriva na escuridão silenciosa.

Isso era paz.

O desfazer de um nó apertado por mais de vinte anos. As mãos esmagadoras da cidade, a guerra infinita travada em seus becos e telhados, o arrepio de ferro do luto que se tornara tão familiar quanto o próprio pulso — tudo se dissolvia nas águas frias e sombrias. Ela o lavava. Uma absolvição que nunca buscara. Uma misericórdia na qual nunca acreditou merecer.

A escuridão consumiu os últimos vestígios de luz. Ele não viu nada. E, nesse nada, havia um alívio profundo. A missão havia terminado. A dor chegaria ao fim. Deixou escapar a última bolha de ar dos lábios, uma confissão final e silenciosa.

Sim.

Paz total. Esquecimento perfeito, aveludado.

E então isso lhe foi roubado.

 

Um arquejo rasgou-lhe a garganta, áspero e dolorido. O arquejo de um morto forçado de volta à vida. O berço da água gelada desapareceu, substituído pelo calor úmido de lençóis encharcados de suor, retorcidos em volta de suas pernas. O silêncio absoluto foi despedaçado pelo lamento distante de uma sirene, chorando através da penumbra da cidade antes do amanhecer.

Bruce fitava o teto de concreto do quarto na Torre.

Ele respirava. Ele estava vivo.

A decepção oca dentro dele espalhou seus tentáculos negros pelo coração, pelos pulmões. Permaneceu deitado, imóvel, deixando o sentimento se enraizar fundo em seus ossos. A paz fora uma mentira. Um truque químico passageiro de um cérebro moribundo. Esta era a realidade. Costelas latejando por causa de uma queda do telhado dois dias atrás, o gosto metálico e persistente de sangue na boca vindo de um corte que se recusava a cicatrizar, o tormento interminável da consciência comparado à beleza vazia de seus sonhos. Ou pesadelos.

Endireitou-se, um movimento lento e rangente contra os fios em brasa da dor em suas costelas. Uma tortura comum, domada e contida. Seu corpo era um livro de contabilidade de seus fracassos, escrito em cicatrizes e nós de dedos eternamente machucados. Passou a mão pela aspereza da barba por fazer. O sonho era um visitante recorrente, um fantasma amigável que aparecia de tempos em tempos para lhe oferecer a tentação de um fim.

Decepção. Era uma vergonha silenciosa, secreta. Ele sabia que deveria ter acordado em terror, mas só sentia perda. Estivera tão perto da libertação, da quietude final, e lhe fora negada.

Moveu as pernas para fora da cama e se levantou, uma silhueta nua contra a paisagem ferida e em expansão de Gotham. A aurora era apenas um fiapo no horizonte leste, delineando os esqueletos de prédios ainda à espera de demolição, as espinhas cintilantes de novas construções e as ruas escuras e molhadas que conectavam tudo isso.

Sua cidade. Seu fardo. Sua penitência.

Viu o Bat-Sinal, apagado e dormente no topo do prédio da GCPD, uma promessa à espera de ser cumprida. Ele havia jurado ser um símbolo de esperança. Havia se forçado para dentro da luz. Ele, essa criatura bruta, colossal, nascida da noite, tentando aprender a linguagem do dia.

Como Bruce Wayne, participava de reuniões de diretoria e falava com sua voz baixa, truncada, em salas cheias de conversas confiantes. Apertava mãos em bailes e cerimônias de premiação, seu toque rígido. Não treinado. Representava o papel de Bruce Wayne, uma máscara mais falsa do que jamais fora o capuz.

Caminhou até a janela, pressionando a palma contra o vidro frio. Abaixo, os primeiros sinais de vida surgiam. Um caminhão de lixo roncava pela rua. Uma figura solitária apressava-se pela calçada, o colarinho erguido contra o ar úmido.

Outro dia havia começado. Outra noite cairia. E ele teria que enfrentar tudo novamente.

───  ⋅ ∙ ∘ ☽ ༓ ☾ ∘ ⋅ ⋅  ───

O frio mordia através das frestas do capuz, uma carícia familiar. Do seu posto em um telhado com vista para a Grand Avenue, a cidade era um nervo exposto, latejante e em grito. Abaixo, um mar de rostos furiosos avançava contra a linha de escudos de choque. O cheiro de asfalto molhado e de fumaça de escapamento se misturava ao ar junto das vozes, coros de indignação erguidos em direção ao céu.

BANCO MERCANTE DE GOTHAM = OS VERDADEIROS LADRÕES MASCARADOS

CADÊ NOSSOS DOIS BILHÕES $$$$?

PRENDAM OS BANQUEIROS, NÃO OS POBRES!

Fantoches toscos dançavam acima da multidão — um caricaturando o CEO do BMG, outro o governador Adam Scotts —, seus cordões puxados pela fúria. Bruce sentiu uma raiva sombria, quase pessoal. Uma parte significativa daqueles dois bilhões roubados havia sido dinheiro da Fundação Wayne, fundos destinados ao Programa de Recuperação por uma Gotham Melhor.

Uma promessa que ele havia feito à cidade.

Agora, três anos após a enchente, famílias ainda estavam amontoadas em casas pré-fabricadas da FEMA, enquanto reluzentes condomínios vazios devoravam o horizonte em distritos que a água jamais tocara. Mais um fracasso. Seu fracasso.

A leste, uma multidão menor e mais feia se reunia, isolada e protegida por uma segunda linha da GCPD. Os Filhos de Gotham. Seus cartazes eram mais simples, sua mensagem mais rasteira. Suásticas pontilhavam suas bandeiras, e seus gritos eram uma ladainha gutural de ódio. Lançavam insultos através da barreira policial, cuspindo veneno contra a manifestação maior, chamando-os de comunistas, degenerados, imundície. A polícia estava voltada para o protesto principal, de costas para os neonazistas.

Protegendo os agressores.

Era uma cena que ele já havia testemunhado dezenas de vezes. A cidade devorando a si mesma, enquanto a lei empunhava garfo e faca.

A tensão abaixo era um zumbido de alta frequência que vibrava pela pedra sob seus pés. A linha policial avançava, cassetetes erguidos. Um toque de recolher repentino, anunciado minutos antes, lhes dera o pretexto necessário. Estavam provocando, cutucando.

Então, aconteceu. A faísca.

Um jovem, com não mais que vinte anos, tropeçou na linha de frente. Três oficiais o agarraram. Arrastaram-no para trás dos escudos, longe do apoio da multidão. O cartaz do rapaz — um simples apelo desenhado à mão por moradia — foi esmagado na sarjeta. Os Filhos de Gotham rugiram em aprovação, um som selvagem e triunfante.

Os oficiais jogaram o manifestante ao chão. Uma bota acertou suas costelas. Outra em seguida. Estavam espancando-o. Não contê-lo. Espancando-o. A multidão avançava, uma onda de corpos colidindo contra a muralha de escudos, seus gritos por justiça se transformando em clamores desesperados. Faltavam segundos para a revolta explodir.

Hora de agir.

Ele despencou do telhado, a capa abrindo-se e agarrando o ar como asas negras. Não mirou nas sombras. Caiu na zona neutra entre a polícia e os manifestantes, suas botas de biqueira de aço golpeando o asfalto com um baque pesado e definitivo.

Um silêncio caiu sobre a rua. A energia frenética murchou em um silêncio atônito. Os gritos morreram. Os cassetetes da polícia congelaram no meio do golpe. Todos os olhos, cheios de esperança, ódio ou medo, estavam sobre ele. Mil câmeras de celular se ergueram, suas pequenas luzes formando um campo de vaga-lumes eletrônicos.

Ninguém sabia o que viria a seguir.

O Morcego era uma criatura de vingança, de esperança. Um assombrador de becos e um farol na escuridão. Qual era seu lugar em uma praça pública? Servia à lei, por mais quebrada que fosse, ou ao povo que ela havia falhado em proteger?

Ele ignorou a multidão. Seu foco se estreitou aos três oficiais que se erguiam sobre o corpo caído do manifestante. Começou a andar, sua passada pesada consumindo o espaço entre eles. Cada passo era um julgamento.

— Soltem-no — falou o Batman, sua voz profunda amplificada pelo capuz.

Os manifestantes, silenciosos por um momento, explodiram em reação. Uma onda de aplausos, de validação. Ele estava com eles. A sua intervenção ecoava como um rugido que sacudia as janelas dos prédios.

Os cânticos de “Soltem-no! Soltem-no!” reverberavam pelas ruas de Gotham.

O oficial de maior patente, um sargento de pescoço grosso e sorriso desprezível e socável, endireitou os ombros.
— Não recebemos ordens suas, aberração. Isso é trabalho oficial da polícia. Ele violou o toque de recolher.

Batman não diminuiu o passo.
— Acabou. Soltem. Ele. — repetiu, exigindo.

— Ele é um criminoso — cuspiu o sargento. — E você também.

Essa seria a última palavra permitida. Batman se abaixou, sua luva blindada fechando-se sobre o casaco do manifestante. Levantou o jovem como se fosse um saco de compras, afastando-o do alcance dos oficiais com a facilidade de arrancar uma erva daninha. Empurrou o garoto de volta para a multidão. Mãos se estenderam, puxando seu companheiro para a segurança das fileiras. A multidão se abriu, e uma equipe improvisada de socorristas imediatamente entrou em ação, suas vozes calmas e tranquilizadoras.

O sargento avançou, cassetete erguido.
— Você está preso!

O golpe vinha em direção à cabeça. Batman nem sequer se moveu. Ele pegou o cassetete com sua manopla, então agarrou a mão do oficial e torceu. O som de ossos quebrando foi nítido no súbito silêncio. O sargento gritou, agarrando o pulso quebrado.

Dois outros oficiais atacaram, um pela esquerda, outro pela direita. Desajeitados. Movidos pelo medo. Ele se moveu entre eles, um borrão negro. Um golpe de cotovelo na mandíbula do primeiro oficial fez-o cambalear de volta para a linha policial. Batman girou e desferiu quatro golpes rápidos no outro. Ambos caíram pesadamente no chão, gemendo.

A linha inteira de policiais de choque avançou. Um muro de armadura negra e plexiglass. Eles se lançaram sobre ele.

Foi um erro.

Ele os enfrentou de frente.

Um punho enluvado esmagou um capacete, derrubando um policial. Um cotovelo blindado encontrou uma garganta. Lógica, geometria fria, guiava o arco quente de seus golpes. Os manifestantes ofereciam seus gritos como hinos de batalha.

Ele desarmou um policial, usando o próprio cassetete para derrubar dois outros. Empurrou outro com um golpe de palma no colete, deixando o homem ofegante. Em menos de dois minutos, uma dúzia dos melhores de Gotham estava babando no asfalto. O restante hesitou, a valentia desaparecendo, substituída por um medo molhado. Olharam para o demônio blindado, em pé e intacto entre seus camaradas caídos, e romperam a formação rapidamente.

Recuaram, arrastando os feridos, sua formação se dissolvendo em uma corrida desesperada para a segurança dos veículos.

Os manifestantes rugiram em vitória.

Mas a noite não tinha acabado. Os Filhos de Gotham ainda permaneciam, sua escolta policial desaparecida. Expostos, seu ódio se esvaziou e perdeu força. Num último gesto desesperado, gritaram torrentes de veneno, insultos racistas, epítetos homofóbicos. Imundície. Tudo jorrou, um ato final e patético de desafio.

Batman voltou sua atenção para eles. Caminhou lentamente em direção à barricada, os aplausos dos agradecidos desaparecendo atrás dele. Sua simples presença os silenciou. Seus cânticos de ódio murcharam na garganta.

— Vão para casa — ordenou.

Eles permaneceram, momentaneamente paralisados. Medo e orgulho fascista disputavam entre si. Um deles, maior que os demais, com um mullet castanho escuro e bigode combinando, e um par de relâmpagos tatuados de forma irregular no pescoço, decidiu ser mártir.

Saltou sobre a barricada e desferiu um soco desajeitado na cabeça de Batman.

— A gente não corre de nenhum maldito—

A resposta de Batman foi imediata. Ele agarrou o soco, torceu o braço do homem, girando-o de volta pelo caminho de onde vinha, fazendo-o tropeçar nos próprios pés e cair com o rosto no asfalto.

Ele encarou o rosto vermelho e os olhos envergonhados do homem.
— Esta cidade é para todos — rosnou sua promessa de violência. — Dispersando. Agora.

Os outros Filhos de Gotham apenas observaram, sua coragem evaporando completamente. Eram covardes no fundo, valentões que só encontravam força em números e na proteção de um sistema corrupto. Desprovidos de ambos, dispersaram como ratos, derretendo-se de volta aos becos de onde haviam surgido.

Os manifestantes aplaudiram novamente, aliviados e gratos. Avançaram, celulares erguidos, registrando o momento.

Batman permaneceu, uma silhueta humilde e imponente contra as luzes piscantes. Levantou uma mão, e eles lhe deram espaço para falar.

— Não fiquem fora até tarde — disse, disparando seu gancho contra a face de granito de um prédio próximo. — Tem um toque de recolher.

Riram. Gritaram agradecimentos e elogios. Ele lhes deu um último aceno firme antes de se elevar na escuridão que chamava de lar.

─── ⋅ ∙ ∘ ☽ ༓ ☾ ∘ ⋅ ⋅ ───

O asfalto encharcado chiava sob os pneus do Bentley. Dentro, seu mundo se reduzia ao zumbido do ar condicionado e ao toque suave do couro. Bruce Wayne sentava-se no banco de trás, um fantasma em terno sob medida, a cidade deslizando pela janela escurecida como um filme sombrio e familiar. A clareza visceral da noite, o rugido da multidão, o satisfatório estalo do cassetete contra sua manopla, evaporara com a aurora, deixando apenas este silêncio estéril e a dor surda em seus nós dos dedos.

Ele olhou para a tela do telefone, passando por relatórios de mercado e memorandos internos, o polegar pousando em uma manchete do Planeta Diário.

METRÓPOLIS E O MUNDO: UM ANO APÓS O INCIDENTE LUTHOR

Por Lois Lane

Ele passou os olhos pelo artigo, sua mente preenchendo as lacunas que a prosa sanitizada do jornalista deixava de fora. Lía-se como um mito, uma épica moderna para um mundo desesperado por salvadores. Um ano atrás, Superman, o alienígena Boy Scout, havia traçado uma linha na areia, defendendo a nação soberana de Jarhanpur de uma invasão de seu vizinho, Boravia. Um ato nobre, exceto pelo fato de que Boravia era um aliado-chave dos EUA, e a intervenção lançara a política global em desordem.

Então veio o vazamento. Lex Luthor divulgou a gravação não editada da nave kryptoniana que trouxe Superman à Terra. Uma mensagem esperançosa de uma civilização moribunda, que incluía uma nota de rodapé muito importante: um mandato genético. Uma diretriz para que seu último filho conquistasse, subjulgasse, povoasse o planeta com um harém de companheiras e garantisse a sobrevivência de sua linhagem. O salvador do mundo estava destinado a ser seu rei-reprodutor. A adoração pública se tornou suspeita da noite para o dia.

O artigo então se voltou ao grand finale de Luthor: a exposição de sua prisão secreta, fora dos registros, uma dimensão em miniatura que se desestabilizou e literalmente partiu Metrópolis ao meio. Um abismo abriu-se no centro da cidade, uma ferida no coração do mundo de Superman.

Enquanto o alienígena lutava contra uma versão distorcida de si mesmo — Ultraman, a arma perfeita e amoral de Luthor — seus novos aliados mantinham a linha. O impulsivo "Lanterna Verde", a guerreira "Mulher-Gavião", o kit de química ambulante "Metamorfo" e o brilhante "Senhor Incrível". Foi o Senhor Incrível quem costurou a cidade de volta, seu gênio revertendo o rasgo dimensional enquanto Superman mantinha seu gêmeo maligno ocupado. Luthor agora apodrecia na prisão. Um final limpo e arrumado.

Vitória em uma escala que Bruce mal conseguia compreender.

Ele desligou o telefone. A tela ficou preta, refletindo seu próprio rosto sombrio. Titãs lutando contra titãs, cidades despedaçadas e reconstruídas.

E ele ali, preso no trânsito.

Olhou para a cidade além do vidro. Gotham. A enchente de 22 havia recuado, mas a linha d’água permanecia, uma mancha permanente na alma da cidade. O Charada estava trancafiado, Falcone morto, mas a podridão que deixaram para trás apenas se metastatizou.

Como Bruce Wayne, ele investira bilhões no Programa de Recuperação por uma Gotham Melhor, uma tábua de salvação para os bairros alagados do Beco do Crime e Bowery. Como Batman, patrulhava as novas ruas desesperadas, uma promessa de que as sombras tinham um guardião, e não apenas aqueles que se aproveitavam dos indefesos. Ele havia feito um juramento de ser mais que vingança. Ser esperança.

Três anos se passaram, e tudo começava a parecer um esforço inútil.

O progresso era uma farsa. O dinheiro desaparecia em um labirinto de empresas de fachada e projetos de construção fantasmas assim que saía de suas mãos. Condomínios de luxo surgiam em distritos que nunca haviam visto uma gota de água da enchente, enquanto os deslocados ainda apodreciam em abrigos da FEMA, seus bairros se desmoronando em ruínas. Os abutres do topo — banqueiros, magnatas do mercado imobiliário, funcionários corruptos da cidade — engordavam com o sofrimento da cidade, devorando os dólares de ajuda destinados aos desesperados.

Ele enfrentava criminosos nos becos, mas os verdadeiros arquitetos do sofrimento de Gotham estavam nas salas de reuniões, protegidos por exércitos de advogados e fortalezas de leis. Cada osso que quebrava era apenas um gesto, e cada dólar que doava era uma gota em um balde furado. O sistema fora projetado para proteger a si mesmo.

O Bentley desacelerou até parar completamente. À frente, outro protesto. Claro. Era o novo pulso da cidade. Um batimento constante e pulsante de raiva. Cercavam o Banco Mercante de Gotham com cartazes erguidos acima da multidão, caricaturas grosseiras do CEO do banco e do governador. Punhos bombeavam em uníssono, bocas abertas em gritos que o vidro espesso tornava silenciosos.

Odiavam o banco. Odiavam o governo. E o odiavam.

Para eles, Bruce Wayne não era um benfeitor. Era a face da classe que os sangrava até a última gota. O bilionário recluso em sua torre de marfim, isolado de seu sofrimento pela própria fortuna. Seu nome estava nos fundos dos quais haviam sido enganados. Mais de uma vez. Eles não sabiam que ele lutava por eles na escuridão. Só sabiam que ele os observava se afogarem do conforto de sua mansão.

Ele viu seus rostos, seus olhos vazios. Sentiu um cínico e familiar desgaste se instalar em seus ossos. A raiva deles era justificada, mas sem direção, um fogo que se consumiria contra as paredes intransponíveis das instituições que detinham todo o poder. Ele podia estar com eles à noite como um símbolo, mas o que poderia fazer por eles agora, à luz do dia? Assinar outro cheque para os lobos devorarem?

O motorista olhou para trás, os olhos interrogativos no retrovisor.

Bruce falou com seu tom habitual, plano e frio:
— Apenas dê ré e contorne-os, Ernesto.

───  ⋅ ∙ ∘ ☽ ༓ ☾ ∘ ⋅ ⋅  ───