Work Text:
(quando nada mais resta)
Enquanto sentia sua pele rasgar e seus ossos quebrarem, ele chorou e implorou que o mesmo não acontecesse com Dante.
"Prometi te proteger enquanto eu respirasse, não soltar sua mão enquanto eu tivesse força. Eu não tenho mais tempo...
Deus
Não deixe ele sofrer, não deixe ele sentir o que eu sinto agora, proteja-o por mim”
Por fim, arrancaram sua língua
I . algo espera no jardim, em meio as camélias e orquídeas
Os joelhos não doíam mais, não como doíam anos atrás, ele não está ajoelhado no milho e não há mais nenhum padre Ronaldo o punindo por ser criança e agir como tal. Nada doía a muito tempo, se Dante fosse sincero consigo mesmo, a falta que a dor, que o sentir fazia era o porquê dele ainda se ajoelhar, a razão dele voltar a rezar “ Rainha, Mãe de Misericórdia, vida e doçura esperança nossa salve! ”, até por que, esse era definitivamente o motivo dele enrolar o terço nas mãos e focar nas orações decoradas a muito tempo, conta por conta, mesmo que queime, mesmo que o objeto abençoado pela igreja derreta sua pele corrompida pelo diabo. “ A vós bradamos degredados filhos de Eva. A vós suspiramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas. ”, Dante não foi ao velório de Arthur, ninguém foi, ele sabia que algo foi enterrado, que esse algo não estava inteiro e que esse algo não merecia ser a última memória que ele teria de seu amor, “ Eia, pois advogada nossa; esses seus olhos misericordiosos a nós volvei, e depois deste desterro mostrai Jesus, bendito fruto do vosso ventre ”, o algo está enterrado no jardim que Arthur plantou, entre algumas flores que ele dizia serem as mais alegres, Dante não queria ver o algo, mas se recusava a manter aquilo longe, ainda era o corpo de seu marido, não? Não tinha os mesmos olhos, porque eles devoraram aquele que brilhava verde e via o mundo com doçura, não podia mais sorrir, o quer que tenha acontecido foi brutal, a língua não estava mais lá e os dentes que sobraram estavam todos quebrados, nem mesmo as partes mais profundas de Arthur haviam sobrado, ele foi encontrado na estrada de Inquisidor do Vale e suas tripas a três quilômetros dali, já meio comidas por animais famintos e por eles, não havia mais nada de Arthur Cervero além das lembranças de Dante e aquela coisa enterrada no jardim, que, apesar de incompleta, ainda era algo.
Ó clemente, ó piedosa , ó doce sempre Virgem Maria! Rogai por nós, Santa mãe de Deus…
Para que sejamos sempre dignos das promessas de Cristo
II. semblante desgraçado
“ Você não tem dormido ” ele ouviu a voz suave de Leo dizer, isso o irritou um pouco. O que ele ainda estava fazendo aqui? Com esses discursos de cuidado e carinho que quando postos na prática, eram inexistentes, com seu cinismo tosco e sorriso falso, Dante odiava a presença dele. Foi Leo que o tornou esse monstro impuro que ele é hoje, se suas mãos queimam em contato com o sagrado, Leo é o único a carregar a culpa .
“Não preciso dormir”
“ Está com fome? ” Leo ignora a rispidez na voz do amigo, ele se aproxima de Dante, passa os dedos pelos longos cabelos loiros e o puxa levemente para que ele o olhe, para que ele parasse de ignorar suas necessidades e se permitisse ser o monstro que era, o monstro que Leonardo o tornou
“ Você se oferece? ” Dante se odeia por ceder, e se odeia por gostar. Ele bebe o sangue de Leo, se deleita com a dor que o amigo sente e aproveita cada segundo da refeição, é uma vingança mal pensada e repetitiva que nunca o satisfazia de verdade, ele não queria apenas deixá-lo com dor e fraco, ele queria poder sugar toda a essência dele, tudo o que fazia de Leo Leonardo Gomes. Ele queria tirar tudo dele, fazer com que ele se sentisse como Dante se sentiu quando tudo mudou, quando ele perdeu Arthur, quando ele perdeu a vida, quando Deus finalmente o abandonou. Apesar de tudo que deseja, ele falha, quando a refeição termina Leo apenas sorri, Dante está exatamente onde devia estar, é exatamente o que devia ser.
III. plantado no jardim de mágoas, você parece diferente
Ele estava deitado na grama úmida do quintal, havia chovido naquela manhã e o céu ainda estava escuro, o chão ainda estava molhado e pequenas gotas de água desenhavam as pétalas das flores plantadas ali. Dante se lembrou de quando Arthur trouxe todas aquelas sementes e como plantou de maneira desleixada, ele ficou tão feliz quando fez isso. Dizia que queria decorar a casa, que as cores dariam vida ao lugar e que César e Beatrice adorariam ver os dois com um jardim tão lindo. Agora tudo parecia meio cinza, a grama estava alta e desregulada, as flores emaranhadas com folhas grandes demais, metade de toda aquela alegria apodrecia e secava sem o cuidado de Arthur, ainda sim, Dante gostava do quintal, gostava de se deitar e fingir que as coisas ainda eram boas.
Dante descansava sob a sombra das roseiras, ele ainda se encantava por coisas simples como a pureza das flores, sorria ao encarar a beleza delas e ao sentir a luz do sol, que escapava entre um arbusto e outro, queimando sua pele. Ele levanta a mão até a rosa mais próxima e a agarra, parecia um pouco sujo depois da chuva, as pétalas brancas pintadas com pontos escuros da água que caiu mais cedo. Os dedos de Dante se enrolaram ao redor do caule da flor, os espinhos cortam sua pele mas nenhum sangue sai e nenhuma dor é sentida.
“Eu fico imaginando como seria se o mundo fosse mais calmo, menos perigoso e se nossa vida não estivesse sempre um caos, eu adoraria me casar em um mundo assim, me estabelecer e só viver sabendo da certeza de que você sempre estaria do meu lado” Dante diz olhando nos olhos de Arthur
“Eu me casaria com você agora mesmo, independente de calma, independente de segurança” Arthur diz olhando nos olhos de Dante
“Isso é um pedido?” ele diz surpreso, ele diz surpreso, ele não achava que Arthur diria isso, achava que ele iria concordar, era sensato concordar, o mundo estava em caos e cada dia mais maluco, era certo pensar que um casamento era, não somente impensável como, desnecessário, para que se casar em um mundo que podia amanhecer em pedaços?
“Eu não posso te prometer que amanhã vamos acordar e tudo será perfeito só porque você disse sim , eu não posso prometer que nosso casamento vai curar o mundo e fazer todo o mal sumir, Dante.” Arthur não desvia o olhar, ele está falando sério, ele quer se casar com Dante, “Eu só posso prometer que vou dar o meu melhor pra esse mal nunca nos afete, que enquanto estivermos juntos seremos a cura um do outro”
“Você é louco” o mundo poderia acabar em duas ou seis horas, as coisas eram piores a cada minuto e aqui estava Arthur Cervero o pedindo em casamento como se fez sentido
“Casa comigo, Dante?”
“ Sim ”
IV . quando as coisas eram mais simples e sua voz era conforto
Dante vomita todo o sangue que havia bebido, Leonardo Gomes era um sádico de olhos brilhantes e voz doce e Dante preferia passar fome do que continuar se alimentando daquele lunático sem coração.
As chuvas aumentavam dia após dia e agora era um pouco insuportável ficar no jardim, a terra estava virando lama e o vento havia levado a maioria das flores. Agora o quintal estava sujo e sem cor e Dante não queria ficar lá, ele estava a semanas sem sair de casa e isso não o incomodava mais.
“ Você precisa de ar puro, fique na varanda pelo menos ” Leo diz, com aquela voz que Dante odeia ouvir, ele tenta ignorar mas sabe que não funcionaria, Leo apenas seguiria tagarelando. Ele fecha a torneira e suspira
“ Não preciso sair ” Dante diz junto de um gesto de mão, espalhando um pouco de sabão pelas louças já limpas sem se quer perceber, é uma maneira silenciosa de pedir que Leo o deixei em paz, ele não gosta de falar mais do que o necessário
“ Você não conversa mais comigo, isso é triste ” o sádico de olhos brilhantes e voz doce serpenteia os braços pela cintura de Dante, que paralisa imediatamente. Leonardo o abraça por trás e apoia a cabeça em seu ombro " Se Gal estivesse aqui você conversaria com ele? Eu posso dar um jeito dele voltar, Dante "
“Eu não preciso conversar”
“ Você não dizia isso quando Arthur estava aqui ”
E então Dante se afasta do toque de Leo, ele olha com nojo para o amigo, vai para o banheiro e vomita novamente. Apenas sangue.
V. banquete profano
Leo gosta de provocar Dante, gosta de levá-lo ao limite porque acha engraçado, é divertido dizer coisas que machucam e o deixam com raiva. É divertido porque Dante nunca vai embora, afinal, é Leonardo que o alimenta.
VI. jasmim e cravos, tudo é diferente
Dante não entendia nada sobre flores, Beatrice era quem sabia sobre isso, ele não conhecia o significado de nenhuma delas, Beatrice sabia.
VII. o quão diferente você é daquilo?
Quando aconteceu Dante simplesmente não acreditou, ele jurou que não era real e que ele finalmente havia enlouquecido. Parado no jardim estava Arthur Cervero, faltava um braço, um olho e sangue saia sem parar de sua boca, sua barriga estava aberta e o que havia sobrado de suas tripas apodrecidas e repartidas se arrastava no chão enquanto ele tentava chegar até a porta dos fundos. Ele andava com passos pesados como se estivesse aprendendo a andar, movimentava o corpo com a dificuldade de quem pesa mais do que aguenta. Isso não poderia ser real.
“ LEONARDO ” ele gritou desesperado, correu pela casa até encontrar o amigo, ele o abraça com força e se seu coração ainda batesse, estaria mais alto do que o barulho horrível que vinha do quintal
“Dante?” Leo disse confuso, a última vez que não teve que iniciar uma conversa, um carinho ou se quer teve que ir atrás dele para Dante apenas o olhar, foi antes da transformação. Tê-lo correndo para seus braços e chamando por seu nome era diferente, não novo, incomum.
“ É o Arthur ” ele puxa o braço de Leonardo até a janela mais próxima e aponta para a criatura lá, mas ele não consegue manter o olhar. Não importa o quanto ele repita o nome de Arthur e diga que aquilo lá em baixo é ele, aquela coisa não é seu marido, não de verdade
Mas ele também não é mais o marido de Arthur, ele é algo, um amontoado de restos de quem Dante já foi. Um punhado de lembranças com cabelos loiros e visão embaçada, ele só tem a pele cheia de tatuagens e os mesmos olhos azuis, a alma? O que fazia dele ele mesmo foi consumido a muito tempo, ele não é Dante, ele é algo que sobrou..
Assim como Arthur.
“ É o Arthur! ”, ele repete e a respiração de Leo está pesada quando ele abraça Dante. Leonardo esconde o rosto dele em seu ombro e aperta forte demais, ele encara a coisa no quintal e se força a manter a calma. Vai ser mais difícil alimentar aquilo do que alimentar Dante, aquilo pedia por carne e não só sangue.
VIII. queima sua pele, adoece sua mente
Arthur não fala, ele não sangra mais também e Dante suturou tudo o que estava aberto e caindo, ele está limpo e com roupas inteiras, mal parecia a coisa que rastejou da própria cova só para saciar a fome.
“ Você sabe o que ele come, Dante? ” Leo perguntou olhando nos olhos do amigo
“ Você não precisa me dizer ”
“Você bebe a única coisa que falta em você, falta muita coisa nele , Dante” ele diz um pouco mais ríspido, ele não está tentando esconder nada agora, ele quer machucar, não se divertir
“ Leo, por favor ” Dante quase chora, o que ele poderia fazer? Matar o marido e enterrar na mesma cova que ele saiu? Ele tinha uma segunda chance, por que perderia, por que se torturaria pensando em quão impuros eles eram agora? Ele não conseguiu fazer isso, só Deus sabe o que ele sentiu todo esse tempo sem Arthur, ele não pode abrir a mão dele assim.
“ Começa a rezar, Dante ” Leo diz e joga uma bacia na mesa, Arthur fareja como um animal e se deleita na carne que foi servida especialmente pra ele. Dante entrelaça os dedos e fecha os olhos.
IX. te ver, te sentir, te viver, te ter
A coisa que estava enterrada no quintal e a criatura que se deitava sob a grama agora voltam a dividir uma cama.
Senhor Jesus, lava-me no Teu Sangue e tem piedade de mim!
Dante não se incomoda com o cheiro podre, nem em como Arthur nunca se cura. Ele encontra um passatempo novo, sutura todas as feridas do marido apenas para ver a linha se soltar e a carne podre se abrir novamente, ele gosta de cuidar de Arthur assim, acha que finalmente entende Leonardo e suas manias, mas ainda não consegue alimentar o marido, é nojento demais, faz ele lembrar de quão incompletos eles são agora e isso machuca.
Leo sempre serve muita carne todas as noites e sempre deixa Dante beber o quanto quiser, ele não provoca tanto quanto antes mas é mais protetor. Ele queria se livrar de Arthur, Dante sabe, ele odeia aquela coisa despedaçada andando pela casa como se pertencesse ali, como se ainda se lembrasse de tudo e como se ainda fosse humano, mas Leo não quer se livrar de Dante e entende que se matar Arthur, não vai existir sangue no mundo que faça Dante voltar para ele. Então, mesmo odiando a coisa, ele a alimenta bem o suficiente para que esteja sempre satisfeito, e não reclama quando ela deixa aquele cheiro horrível impregnado nas cortinas e no sofá ou quando ela vaza seus órgãos derretidos pela casa, Leonardo ajuda a colocar de volta tudo o que cai e acende velas perfumadas, jasmim e cravo, para tornar a vida ali mais suportável.
De acordo com a Tua palavra, com minha boca confesso que Tu és o Senhor
Dante entrelaça sua mão na de Arthur, usa a outra para passar as páginas do livro que estão relacionadas em seu colo, ele lê em voz alta para que Arthur possa ouvir e sorri quando percebe que o único olho dele o observa com atenção como se realmente conseguisse entendê-lo.
A mente de Arthur estava mais lenta, funcionava quebrada e de maneira instintiva, ele sabia que precisava comer, então comia, precisava manter o que restava de si dentro do seu corpo, então mantinha, o corpo de Arthur não queria morrer, pelo menos não de maneira permanente, sua mente iria colaborar. Ainda sim, havia algo lá no fundo, algo que não gritava tão alto quanto suas necessidades, algo que se arrastava como ele se arrastou naquele dia, algo que dizia que ele precisava morrer, que ficar vivo era doentio, que estar do lado de Dante era errado e que ele devia voltar a sua cova no jardim. A voz dessa coisa nunca era ouvida, seus instintos por sobrevivência abafavam todo o resto, mas às vezes ele ouvia, às vezes entendia…
Dante termina o livro e o fecha, se move onde está sentado para que sua cabeça fique apoiada no ombro de Arthur, ele fecha os olhos e respira fundo, ignorando o cheiro de carne apodrecida, aperta mais forte a mão do marido e relaxa, depois de meses ele finalmente relaxa.
e com todo o meu coração creio que Deus Pai Te ressuscitou dentre os mortos e que Tu estás vivo para nunca mais morrer
