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O Corvo

Summary:

Hexacity é uma metrópole construída sobre uma mentira. Fora dos holofotes do bom cidadão, becos escuros brotam veias suspeitas. O crime organizado encontra abrigo. E nas sombras projetadas pelo próprio progresso, uma nova espécie de predador emerge.

Há três anos, uma figura misteriosa começou a desmontar esquemas criminosos que a polícia se recusava a tocar. Um mito de terror que se espalhou entre as vielas.

Cecília Clemm - ou Coruja -, uma jornalista que há quatro meses investiga esse ser da penumbra, buscando uma prova concreta de sua existência, mesmo contra todas as possibilidades e alegações de que sua busca é loucura.

Chapter Text

Fundada sob o ideal de ordem absoluta, Hexacity é um paradoxo de concreto e ambição. Seu centro geométrico - um hexágono perfeito de arranha-céus espelhados, chamado de praça da Coroa - é o cartão-postal que o governo vende com orgulho: seis avenidas radiais que cortam a metrópole como raios de uma engrenagem impecável. Dizem que do alto, a cidade se parece com um tabuleiro de xadrez desenhado por um obsessivo.

Mas todo tabuleiro têm casas escuras.

Fora desse núcleo luminoso, onde os holofotes do poder se dissipam, o plano urbanístico começa a fraturar. O que era para ser rua vira beco. O beco vira viela. A viela vira ferida. Como raízes doentes de uma árvore gigantesca, as ramificações irregulares se espalham para a periferia - e é ali, na sombra projetada pelo próprio centro, que Hexacity revela sua verdadeira face.

Os números são impiedosos. A taxa de homicídios triplicou em cinco anos. Assaltos a mão armada ocorrem a cada quarenta minutos. E não são apenas os criminosos comuns que encontraram abrigo nos confins da cidade. Circulam histórias - abafadas, sussurradas, negadas - sobre cultos que realizam rituais nos porões de prédios abandonados. Sobre esquemas de corrupção que engolem verbas públicas e cospem estruturas precárias. Sobre os insanos que se tornam figuras públicas e admirados.

Hexacity adoece. Dia após dia.

Mas cidades doentes, como corpos doentes, criam anticorpos.

Alguns chamam de lenda. Outros, de pesadelo. Os mais cautelosos paralisam quando o nome é pronunciado. Dizem que nas sombras onde o estado não alcança, onde a polícia não pisa e a justiça não penetra, algo se move. Algo que devolve medo aos que só conheciam a coragem da impunidade. Algo que escreve as sentenças que os tribunais engavetam.

Algo que eles chamam de vingança.

O Corvo se esconde nas sombras.

 

 

Terça-Feira 04/06, 7h43 - Bairro 2

O dia amanheceu cinzento, como a maioria dos dias em Hexacity. Não aquele cinza de tempestade - o pior, o cinza administrativo, que não chove nem clareia, apenas suga as cores até que os edifícios pareçam tumbas verticais.

O trânsito já engarrafava as seis avenidas principais. Carros buzinavam por esporte. Vendedores ambulantes negociavam sonhos passados com o entusiasmo de quem finge que o dia será bom. Estudantes de uniformes desalinhados corriam para não perder o segundo horário. Executivos de ternos cinza falavam ao celular com agressividade e escândalo.

No meio desse formigueiro humano, uma figura destoava não por se destacar, mas por carregar nos ombros o peso invisível de quem está prestes a se desfazer.

Cecília Clemm.

Vinte e cinco anos. Estatura mediana. Uma postura que, em tempos melhores, lembrava bailarina ou bibliotecária: coluna ereta, queixo levemente erguido, como se equilibrasse livros invisíveis sobre a cabeça. Hoje, porém, essa postura era uma casca frágil sustentando um vulcão prestes a entrar em erupção.

O cabelo loiro - normalmente cortado rente à nuca num estilo prático que ela chamava de "funcional" - amanheceu em rebelião. Mechas escapavam do penteado como um campo de trigo dourado. Olheiras profundas, dignas de um poema draculino, contrastavam com sua pele clara. Os olhos castanho-mel, antes vivos de curiosidade, agora tinham o brilho opaco de quem viu o relógio marcar 3h da manhã mais vezes do que gostaria de admitir.

O nariz romano - aquele traço que lhe rendeu o apelido "Coruja" desde o colégio e que ela aprendeu a amar depois de muitos anos fingindo odiar - sustentava um par de óculos redondos de aro bronzeado, ligeiramente tortos, um presente do pai. Um dos vidros apresentava uma trinca minúscula. Ela nem lembrava mais quando isso aconteceu.

- Deus, Deus, Deus - sussurrou entre dentes, desviando de uma senhora com carrinho de compras - Com licença, desculpa, tô passando...

Blusa social creme, amarrotada, a terceira vez que usava na semana. Colete marrom de botões dourados, mas os botões trocados de lugar, o primeiro enfiado na segunda casa, o segundo boiando solto. Calça de linho escuro, a bainha direita desfeita, arrastando no asfalto. Botas fiveladas, originais, de couro legítimo, herança do avô que parecia ser a única coisa em ordem no seu figurino.

Na mão direita, um tablet com a tela rachada em diagonal. Ela o segurava com a ansiedade de quem espera uma mensagem que não chega, passando o polegar por anotações digitais acumuladas em diversas pastas.

Na alça do ombro esquerdo, uma mochila de couro envelhecido da época da faculdade. Papéis amassados espremiam pelas laterais quase explodindo em uma pilha de impressos. Um deles tinha uma mancha escura no canto. Café, provavelmente.

E, no bolso esquerdo do colete, algo que ela tocava a cada poucos minutos - um gesto quase inconsciente: o relógio de bolso.

Herança do pai que lhe deixou os óculos. Prata envelhecida. Tampa frontal gravada com um hexágono minúsculo, símbolo da cidade. Cecília quase nunca o abria. Preferia sentir o tique-taque abafado contra o peito, como um coração mecânico que ela carregava para lembrar que o tempo, ao contrário de Hexacity, ainda seguia em frente.

- Me desculpa, tô atrasada, tô atrasada... - repetiu, esbarrando num rapaz de terno que a encarou com desprezo. Nem viu. Nem se importava.

Então finalmente chegou ao seu trabalho: Central de Jornalismo Varminho.

Um prédio enorme e bem bonito apesar de estar longe do centro, com grandes janelas que pareciam olhos que observavam a cidade constantemente, era o maior centro de informações para o cidadão médio. Nos andares centrais, havia um letreiro metálico que indicava o nome do local de forma bem chamativa.

Ela parou diante da imponente porta de vidro fosco, tentou arrumar o cabelo com uma mão trêmula, falhou miseravelmente, suspirou fundo e entrou.

O sininho na porta tilintou.

Lá dentro, ninguém se virou para olhar.

A não ser, claro...

- Boooom diiaaaa, Amigaaaa!!! Corujete raquelete!!

A voz veio acompanhada do tac-tac-tac rítmico de tamancos contra o piso de granizo.

Suellen da Silva.

A colega de escritório de Cecília. Uma jovem madame de meia idade com a energia de quem acabava de chegar ao seu próprio aniversário de quinze anos e estava radiante com os presentes. Cabelos loiros longos amarrados num coque alto bem firme. Olhos azuis cristalinos que pareciam menos enxergar e mais perfurar a alma. E, na bochecha direita, uma nada discreta tatuagem de flor - uma rosa vermelha com detalhes em dourado, que ela jurava ter feito numa viagem a Paris e que todos sabiam ter sido no Bairro 3, no estúdio do seu cunhado.

Se vestia como o imaginário popular idealiza uma mulher de negócios: blusa branca de mangas arregaçadas, decote na altura certa da clavícula para sugerir sem oferecer. Saia executiva tomara-que-caia e meia-calça fina. Os tamancos brancos forçavam qualquer interlocutor a olhar para cima quando conversavam. Maquiagem impecável, manicure do dia anterior, unhas em formato amêndoa pintadas de um vermelho que combinava com a tatuagem.

Suellen era um poço de vaidade e autoestima, com um carisma gritante que levantava - nem que fosse à força - a moral de qualquer ambiente onde pisasse.

Ao ver Cecília naquele deplorável estado, se prontificou a barrar sua passagem, a pegando pelos ombros como uma mãe coruja (a ironia não escapou a nenhuma das duas) e começando a ajeitar o que era possível: cabelo aqui, botão dali, colete no lugar.

- Nossa, você tá horrível! - disparou a mais velha, sem rodeios. - Parece que ficou acordada a madrugada inteira, e quando foi sair foi atropelada por um ônibus, saiu rolando e caiu num bueiro próximo!

- Obrigada pela parte que me toca, Susu - Cecília deixou escapar uma risadinha sarcástica, imóvel sob os cuidados da colega. - Bom dia pra você também.

- Pode rir, mas se eu não cuidar de você, quem vai? Os duendes da estação?

- Não existem duendes na estação Central... eles ficam na estação amarela.

- Que você saiba.

Agora ambas estavam no elevador, subindo rumo aos andares mais altos.

Cecília parecia ansiosa. Enrolava o cordão do relógio de bolso em torno do dedo indicador num movimento contínuo e quase hipnótico. Cada volta, uma respiração. Cada respiração, um pensamento sobre a apresentação que viria.

Já Suellen revirava o celular com um sorriso orgulhoso estampado no rosto, aquele sorriso de quem descobriu um segredo e está agoniando para contar.

- Você viu aquele babado fortíssimo no Twitter ontem, viu? - questionou a ela, sem nem esperar resposta. - Se sim, saiba que fui eu que tava pescando a matéria. E se não... te conto agorinha.

- Não tenho redes sociais, Susu - retrucou Cecília, o tom cansado mas afetuoso. - No máximo o Instagram pra queimar tempo vendo reels de gato.

- Gato. Com o tanto de coisa interessante acontecendo no mundo, você tá vendo gato.

- Gatos são interessantes.

- Gatos não pagam suas contas, Corujinha, você precisa viver das notícias, das trends em alta.

Suellen se aproximou, o celular já aberto na tela de um print de outro print.

- Sabe, sabe aquele Daniel Hartmann? Barbudo, mal encarado, cara de quem lê Nietzsche no escuro?

- O escritor?

- Isso, isso, ele mesmo né. Pois bem: tá de rolo com um professor do colégio Nostradamus, minha filha. Tipo, a gente - ela enfatizou o plural com um ar de cumplicidade -, sério que achou que podia esconder? O cara só tem marra de machão, mas sabe como é... nas balada é Raissa Rayana.

O elevador deu um solavanco. As luzes piscaram.

- Ah... - Cecília suspirou, o olhar fixo no painel de botões. - Que interessante, Susu.

- Nem fala! Peguei mó bafafá, virei hashtag, tô até agora respondendo gente. Como os jovens dizem? H-i-t-e-i. Hitei. Acho que é isso.

As portas do elevador se abriram no oitavo andar com um gemido metálico.

Cecília não se moveu.

Ficou parada, batendo levemente a ponta da bota no chão, o cordão do relógio agora completamente enrolado no dedo a ponto de cortar a circulação. Sua respiração mudou, ficou mais curta, mais rápida.

Suellen percebeu na hora.

Sem perguntar nada - essa era uma das qualidades que a tornavam uma boa amiga -, ela simplesmente guiou a mais jovem com delicadeza para fora do elevador, fazendo um afago nos cabelos desgrenhados da colega.

- Ei - a voz de Suellen agora era mais baixa, mais macia. - O que foi, meu bem? Você tá cheia de siricutico desde que chegou. Nem tomou café. Olha suas mãos, tão geladas. Ah... - seus olhos se arregalaram num lampejo de compreensão. - Você vai falar com o Diego?

- É... - Cecília mordeu o lábio inferior. - Eu... dessa vez eu tenho algo pra apresentar pra ele. Algo que vai fazer ele ter fé na minha investigação.

- Investi...- a loira piscou, confusa, e então a ficha caiu. Seu rosto se iluminou. - Ah! O caso.

- O caso.

- O caso do...

- Não fala o nome.

- Certo, certo. O caso do amigo do peito. - Suellen fez aspas no ar com os dedos. - O justiceir...

- Susu.

- Tô quieta, tô quieta. - Mas não conseguiu conter o sorriso. - Cecília e seu justiceiro gostosão misterioso. Minha nossa, isso já tá virando uma saga. Quanto tempo já? Três meses?

- Quatro.

- Quatro meses de investigação. Eu já li romance com trama mais rápida.

Coruja suspirou.

- Diegão tá um fio contigo, quer dizer - sua amiga fez uma pausa dramática -, não sei se isso te ajuda ou te atrapalha, mas acho que é bom saber. Ele perguntou de você semana passada. Em uma reunião.

- Ele só quer saber se eu tô produzindo algo útil na visão dele.

- Sim, sim, Corujinha. Mas o Diego é bem liberal. Confia na mãezona.

As duas caminhavam agora pelo corredor de paredes brancas manchadas de umidade, portas de madeira com placas de latão indicando nomes e cargos. O cheiro de café velho e papel mofado impregnava o ar.

- Mas dessa vez - Cecília retomou o fio da meada, a voz firme apesar do tremor nas mãos - eu organizei tudo. Uma compilação de relatos de testemunhas. Ligações lógicas de acontecimentos nos últimos três anos. E uma prova cabal. Cabal, Susu. Ele vai formalizar essa notícia. Eu sei que vai.

Suellen parou.

Colocou as mãos nos ombros de Cecília, olhou fundo nos olhos castanho-mel que tanto lhe lembravam os de sua irmã mais nova.

- Admiro sua determinação, pequena Corujete - disse, com uma sinceridade rara em sua voz. - De verdade. Você tem coragem de correr atrás do que acredita, mesmo quando todo mundo acha que você tá só viajando. Isso não é pra qualquer um.

Cecília sentiu um nó na garganta e um calor no peito.

- Obrigada, Susu.

- Agora vai. E lembra: se ele falar não, a gente abre nosso próprio jornal. Corvo News. A gente bota um corvo no logo, faz uma pah de merchandising, vende camiseta...

- Susu...

- Tô indo, tô indo. - A loira recuou, fazendo joinhas. - Mwa mwa, nos vemos no almoço. E come alguma coisa hoje, hein? Você tá parecendo um palito de dente com óculos.

- Até, Susu.

Cecília acenou fracamente e se voltou para a última barreira.

Diante dela, a porta de carvalho escuro. A placa dourada, reluzindo mesmo sob a luz amarelada do corredor: DIRETORIA.

"Malditas portas", pensou.

Abriu.

A sala do diretor era um oásis de ordem em meio ao caos corporativo que era o resto do prédio. Arejada, limpa, organizada ao extremo - cada objeto em seu lugar, cada lugar ocupado por um objeto que parecia ter sido escolhido a dedo. Paredes brancas intercaladas com vasos de samambaias e espadas-de-são-jorge. Uma estante imponente de madeira escura abarrotada de livros com lombadas que jamais haviam sido desgastadas. Paredes cobertas de certificados emoldurados - prêmios de jornalismo, menções honrosas, agradecimentos da prefeitura, etc.

Havia duas mesas.

A primeira, vazia, encostada numa parede lateral ao lado de um pilar onde se empilhavam impressoras e papéis. Uma pequena placa de latão: Vice-diretor Fritz. O lugar de Fritz estava impecavelmente arrumado, como se aguardasse o retorno de um fantasma.

A segunda mesa ficava diante de um janelão que filtrava a luz da tarde através de uma película escura, projetando sombras geométricas no chão. A vista privilegiada alcançava o coração de Hexacity, a praça da Coroa.

Sobre a mesa, apenas quatro objetos: o laptop da empresa (sempre fechado quando recebia visitas), um suporte para um charuto estrangeiro que já estava na metade, exalando um aroma defumado e adocicado, uma caneta-tinteiro de prata que ele girava entre os dedos como quem gira uma navalha e uma placa que deixava claro o território: Diretor geral Diego Granteros

E, claro, o próprio.

Um homem de pele preta tão perfeita que parecia esculpido em ônix polido. Forte, alto, com ombros largos que faziam a cadeira executiva parecer um puff. Era difícil acreditar na idade real dele - seria coisa de outro mundo um homem de quase cinquenta anos manter a feição de um rapaz de vinte e poucos. Rosto liso e bem formado, maçãs do rosto altas, mandíbula definida. Olhos grandes de um verde esmeraldino que brilhavam com uma intensidade quase sobrenatural. Cabelos em longos dreads jogados para trás, alguns decorados com presilhas douradas que tilintavam suavemente quando ele movia a cabeça.

Se vestia como um líder rico e influente deveria se vestir: blazer cinza-escuro sob medida, costuras invisíveis, tecido que sussurrava ao menor movimento. Gravata verde-escura com um nó perfeito (Cecília nunca o viu com a gravata desfeita, nem no fim do expediente). Anéis de ouro em três dedos da mão direita, dois na esquerda. Sapatos italianos que valiam mais que o salário anual de qualquer funcionário do Varminho e ele sabia disso.

- Clemm - a voz de Diego era grave, aveludada, a voz de um homem acostumado a ser ouvido sem precisar gritar. - Que surpresa. - Ele se ajeitou na cadeira, se recostando num gesto que tentava parecer casual mas era, antes de tudo, uma reclamação territorial. - Vamos, se sente. Me diga o que você tem para mim numa manhã de terça-feira onde nem sequer acabei de chegar.

- Ah... claro, claro. Só... - a funcionária revirou a sala com os olhos, buscando algo. - O projetor. Eu posso usar? Onde ele está?

- Na sala do lado. Thiago usou semana passada para fazer uma apresentação da amada filha dele. - O diretor soltou um sorriso, um sorriso que não tocou seus olhos. - Ela está com duas semanas já, sabia? Resolvi dar a licença de paternidade. Ele vai ficar um tempo fora.

- Ah... que bom. - A moça já se movimentava, puxando uma das cadeiras para abrir espaço. - Thiago é um bom homem. Ele merece todo tempo do mundo com a família... Um momento.

Ela organizou o espaço com a eficiência de quem já fez isso centenas de vezes - puxou a mesa lateral, posicionou o projetor no centro, ajustou o foco contra o quadro branco. Seu tablet, a tela rachada cortando o brilho da apresentação, conectou ao dispositivo com um blip eletrônico.

Enquanto isso, Granteros folheava algumas páginas que ela havia trazido: cópias impressas de reportagens antigas, notificações de investigação suspensa, documentos vazados da prefeitura. Notícias envolvendo suspeitas de corrupção da Construtora Opspor. Desvios de verbas. Licitações fraudulentas. O tipo de coisa que, em qualquer cidade normal, explodiria capas de jornal.

Em Hexacity, era apenas mais uma terça-feira interessante.

Diego folheava sem interesse, o olhar passando pelas páginas como quem lê o manual de instruções de um eletrodoméstico - necessário, mas entediante. Ele sabia, e Cecília sabia que ele sabia, que aquelas folhas eram apenas cortina de fumaça, uma garantia posterior. O verdadeiro motivo da reunião estava no projetor.

Cecília respirou fundo.

Tocou a tela do tablet.

Um único slide iluminou o quadro branco.

No topo, em letras garrafais: O CORVO.

Abaixo, um emaranhado de conexões - fotos, manchetes, nomes, datas, setas coloridas que se cruzavam como um mapa mental de um gênio doido. Casos complicados, arquivados, esquecidos; todos resolvidos, todos encerrados, todos de alguma forma interligados. O intervalo de três anos saltava aos olhos: a linha do tempo se estendia como uma espinha dorsal.

No centro de tudo, a imagem que a mulher já havia visto mil vezes e que ainda assim a fazia prender a respiração:

Um vulto escuro. No topo de um prédio. Contra o céu noturno de Hexacity, onde as luzes da cidade não alcançavam.

- A prisão dos Assassinos Mascarados - Cecília começou, a voz mais firme do que ela se sentia. Ela se moveu para a frente do slide, apontando para o primeiro nó do mapa mental. - E do gigante Mosto. A ruptura da banda de criminosos Psikolera. O fim dos esquemas de sequestro e desvio de verbas da Imobiliária Fachada. - Seu dedo percorreu as conexões, traçando o fio invisível que unia casos aparentemente desconexos. - Tudo ligado a um elemento em comum. Uma figura que se apresenta em todos esses casos. Nos bastidores, nas entrelinhas, nas sombras.

Ela se virou para Diego, seus olhares se chocando como água tocando o fogo.

- Hexacity tem um defensor. Um justiceiro nas sombras. Alguém muito inteligente, que desvendou e se articulou contra esses males da cidade. - Ela apontou para o vulto na foto. - As ruas chamam ele de... O Corvo.

Silêncio.

Diego não se mexeu. Não piscou. Seus olhos estavam fixos nela - não no mapa mental, não na imagem, nela. Como se estivesse esperando a piada, o "brincadeira, chefe", o alívio cômico que tornaria tudo aceitável.

Não veio.

Cecília permaneceu firme, o dedo ainda apontando para a tela.

O diretor girou lentamente a caneta-tinteiro entre os dedos.

- Bom... - ela pigarreou, sentindo sua língua se torcer na boca querendo se arrancar fora. - Eu fiquei sabendo que os membros da Psikolera foram internados após alegar insanidade. Então eu tava pensando... fazer uma entrevista com eles. Eles são a fonte mais próxima para confirmarmos a existência do Corvo e...

Um som cortou a frase.

Longo. Profundo.

O homem estava com as mãos cobrindo o nariz e a boca. Seus olhos verdes se ergueram para o teto. Ele soltou um suspiro que parecia carregar o peso de mil reuniões iguais a essa.

Cecília engoliu em seco. Abaixou a cabeça. Seus ombros caíram.

- Clemm - a voz de Diego agora era macia, quase compassiva - o que é pior que um jornalista que não investiga?

Ela não respondeu.

- Um jornalista que investiga coisa errada. - Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa. As presilhas douradas nos dreads tilintaram. - Me diga, onde estamos?

- ...Na sede de jornalismo de Hexacity - Cecília murmurou. - Varminho.

- Ok. E o que fazemos?

- ...Informamos o povo de forma imparcial e apolítica. Um compromisso com a verdade.

- Ótimo. - Diego ergueu um dedo. - Somos a única companhia de jornalismo na cidade, senão, no país, que não recebe crítica por sensacionalismo. Sabe por quê?

- Porque não publicamos... especulação.

- Porque não publicamos lenda. Boatos. "Talvezes". - Ele se levantou. A altura dele, agora de pé, fazia a sala parecer menor. - E você, nesses últimos meses, me vem com a ideia de que há um justiceiro noturno desmontando esquemas criminosos?

- Isso! E...

- Uma família de vampiros morando escondidos na cidade...

- Eles são reais também, eu tenho pistas e testemunhas...

- Um grupo de ocultistas que veneram uma entidade milenar da Mesopotâmia.

Cecília ficou em silêncio.

Constrangida.

O silêncio dela era a única resposta possível, ele falando em voz alta, tudo aquilo que ela acreditava parecia um absurdo sem fundamento. Diego se aproximou devagar, não ameaçador, mas com a pressão de quem já esmagou centenas de sonhos iniciantes antes do almoço.

Ele tocou o queixo dela com dois dedos. Ergendo. Forçando o contato visual.

Seu olhar era hipnotizante de perto. Cecília sentiu um arrepio de algo profundo. A sensação de estar sendo avaliada por alguém que já sabe o veredito antes de ouvir a defesa.

- Olha - Diego começou, a voz baixa, quase um sussurro compartilhado - eu entendo que você tem seus gostos pessoais pelo mistério e o oculto. Tudo bem. Se não tivesse essa curiosidade, nem jornalista seria. - Ele soltou o queixo dela, deu dois passos para trás observando a cidade. - Mas não acha meio errado noticiarmos coisas assim? Num cenário hipotético que todas essas coisas são reais, o que você acha que pode acontecer?

Ele não esperou resposta.

- Pânico. Pânico geral. Não temos estrutura para lidar com esses terrores insanos. - ele caminhou até a mesa, pegou os papéis que Cecília havia trazido. - Pessoas deixando suas casas. Ações despencando. Toque de recolher bem cedo pois vampiros rondam a solta. As escolas tendo que explicar pros pais que não, seus filhos não vão ser sacrificados para a entidade milenar da Mesopotâmia.

Bateu os papéis contra a mesa, alinhando as bordas.

- Fico feliz que você tem consciência que tudo que você me falou aqui é loucura. - Ele a olhou por cima dos óculos de leitura que, num passe de mágica, haviam aparecido em seu rosto. - E por isso, se prontificou a trazer um trabalho de verdade. - Ele ergueu os papéis. - As investigações sobre a Opspor. Isso aqui... isso aqui tem base, Clemm. Isso aqui é jornalismo.

Ele entregou os papéis para ela. Depois, com um gesto seco, desligou o projetor.

O vulto escuro no topo do prédio se apagou.

A sala pareceu encolher.

- Você é esperta - Diego continuou, se sentando novamente, a cadeira rangendo sob seu peso. - Admito. Por isso te contratei entre os milhares de currículos que recebo todo santo dia. Porque você tem instinto. Só falta... - ele rodou a mão no ar, buscando a palavra - ...direção.

Cecília permaneceu imóvel, os papéis pressionados contra o peito.

- Então, Coruja - sorriu, e agora o sorriso chegou aos olhos - como seus amigos te chamam. Continue trabalhando com os pés no chão, que suas asas vão te levar muito longe ainda. Entendeu?

- Entendi. - A voz saiu menor do que ela gostaria. - Me desculpa.

- Não precisa se desculpar. - O maior já pegava o celular, o dedo deslizando pela tela. A reunião havia terminado. - Não sou um carrasco, quero te instruir também. Aliás - ele ergueu o olhar, como se tivesse lembrado de algo menor, quase insignificante - tem dois moleques um tanto irritantes. Tal de "Guizo" e "Xande". Vivem mandando coisas do "paranormal" pra nossa caixa de e-mail. Muita foto borrada, muito vídeo escuro. Nada com fonte. Enfim. Talvez você consiga abrir uma página de curiosidades e intrigas com eles. Transformar o medo em entretenimento.

- Claro - Cecília assentiu, os olhos fixos no chão. - Vou ver o que faço.

- Ótimo. Feche a porta ao sair.

Ela saiu.

A porta de carvalho se fechou às suas costas com um clique suave, quase cortês.

O corredor estava vazio. As luzes fluorescentes zumbiam com uma frequência que doía os olhos. Coruja encostou a testa na parede fria por um segundo - apenas um segundo - e respirou.

O gosto de derrota tinha um quê de amargo e metálico. Ela conhecia aquele gosto. Já o provou outras vezes.

Do bolso do colete, o relógio de bolso marcava 00h40. Bem adiantado, pra variar.

A manhã mal havia começado.

Ela sacou o celular. Seus dedos tremeram um pouco ao abrir o aplicativo de mensagens.

A lista de contatos.

O velho Santiago.

A última mensagem era dela. Um mês atrás. Um simples: "Preciso de mais tempo."

Ele nunca respondia, apenas visualizava.

Cecília digitou. Apagou. Digitou de novo.

No final, mandou apenas:

C: "Depois do serviço, quero conversar. O mesmo lugar."

Ela guardou o celular antes que pudesse mudar de ideia.

O resto do dia se arrastou como uma engrenagem enferrujada.

Cecília voltou aos andares mais baixos e sentou à sua mesa, uma escrivaninha de metal enferrujado no canto noroeste da redação, onde a fiação exposta pendia do teto como cipós elétricos e o ar-condicionado nunca funcionava direito. Escreveu duas matérias menores (um incêndio na Zona Leste, uma queda de barreira na estrada municipal), respondeu dezenove e-mails (dezoito irrelevantes, um que ela arquivou para ler depois), e tomou quatro xícaras de café que não fizeram cócegas no cansaço que lhe moía os ossos.

Suellen apareceu duas vezes: uma para trazer um sanduíche de queijo quente (Cecília comeu metade) e outra para avisar que o Diego havia elogiado seu cafezinho da tarde (preferiu não responder).

O sol se pôs atrás dos arranha-céus.

O céu se pintou de laranja e roxo - a única beleza verdadeira que Hexacity oferecia sem cobrar nada em troca.

Clemm bateu o ponto às 18h47. Parou em casa para tomar um banho (água fria, para acordar), esquentou uma lasanha para jantar, e ao entardecer da noite, vestiu uma jaqueta de couro por cima das roupas para aguentar o frio que fazia nesse começo de inverno e se organizou para colocar seu plano em prática.

Sem pestanejar, sem hesitar, ela saiu.

Era 23h30.

A noite a engoliu.

•••

Terça-feira 04/06, 20h25 - Bairro 6

A noite chegava, e com ela, o prenúncio do pior dessa cidade.

O Departamento de Polícia de Hexacity era uma estrutura gigantesca - um monumento de concreto armado e vidro blindado que acomodava centenas de funcionários distribuídos em dezenas de postos e divisões. Os corredores se estendiam como labirintos projetados por um arquiteto paranóico, com infinitas portas que davam em outras portas que davam em corredores idênticos. O governo adorava ostentar o investimento na segurança pública, placas de "Governo Presente" em cada parede, câmeras em cada ângulo, selos de eficiência em cada relatório.

O que o governo não mostrava era o que acontecia depois que os holofotes se apagavam.

Afastado do hall grandioso e iluminado, bem nas entranhas da estrutura - três andares abaixo do nível da rua, onde o ar cheirava a desinfetante e desespero - estava o necrotério. A ala de perícia criminal. Isolada para manter o ambiente estéril, separada do resto do mundo por uma pesada porta de ferro que rangia como uma banshee sempre que alguém a abria.

Era um lugar que os funcionários evitavam. Não por medo dos mortos - os mortos eram os mais dóceis ali dentro - mas pelo peso da história que cada um carregava em seu fim trágico.

Naquele horário, a maioria das luzes do corredor já estava desligada. A economia de energia, dizia o memorando na parede. A economia de tudo, sussurravam os funcionários nos corredores.

Ao longe, uma comoção abafada:

- Festa na casa do Thiagão!...

- Thiago-san, estou muito feliz por você, parabéns...

- Ae, Thiago, parabéns pela pequena...

Vozes felizes. Alegria genuína. O tipo de som que não pertencia àquele andar.

Mas bem rapidamente, as vozes se dissiparam - abafadas por portas, engolidas por corredores, esquecidas pelo eco.

Dentro da ala, o silêncio era de outro tipo.

A figura masculina se movia com a precisão de um relógio suíço. Alto, porte esguio, ombros largos mas um corpo aparentemente magro - a silhueta de alguém que passava mais tempo em pé do que sentado, mais tempo observando do que vivendo. Longos cabelos negros, lisos como seda, presos por uma touca médica azul-clara. Rosto andrógeno - maxilar marcado, maçãs do rosto altas, lábios finos e bem desenhados. A pele era branca como a neve.

Os olhos, quando erguidos, revelavam uma íris de um roxo tão claro que parecia quase lilás, afiados, atentos, perpétuos em seu escrutínio.

Vestia um pijama cirúrgico completo; azul-claro, amarrado nas costas, ajustado nos mínimos detalhes. Luvas de látex brancas. Botas hospitalares de sola antiderrapante. Uma máscara cirúrgica cobria a parte inferior do rosto.

Diante dele, numa maca de alumínio polido, estava o corpo nu de um homem de meia-idade.

Ou o que restava dele.

A metade direita da cabeça havia simplesmente... sumido. O que sobrava era uma cavidade irregular, bordas carbonizadas, fragmentos de osso expostos como dentes quebrados. O rosto da esquerda ainda era reconhecível: olho fechado, sobrancelha espessa, meio da testa marcado por uma cicatriz antiga.

Nolan, o perito de plantão, - um dos dois seres humanos que voluntariamente passava mais de doze horas seguidas naquele lugar - se inclinou sobre a mesa ao lado. Instrumentos cirúrgicos reluziam sob a luz fria do teto. Pinças, bisturis, tesouras. E, num pequeno recipiente de vidro, os detritos que ele havia extraído com paciência monástica.

Fragmentos de munição de fuzil.

Ele ergueu um dos fragmentos contra a luz, o rotacionando entre os dedos enluvados.

- Hmm... - a voz de Nolan era suave, quase musical, um barítono macio que contrastava com a brutalidade do cenário. - Execução. Muito bem planejada.

Ele se aproximou do corpo novamente, inclinando a cabeça em ângulos diferentes. Seus olhos roxos percorriam o trajeto que o projétil havia feito - entrada, trajetória, saída (ou, neste caso, fragmentação). Calculando ângulos, distâncias, posição do atirador.

- Ângulo descendente, trinta e cinco graus... - murmurou para si mesmo, quase como uma anotação. - Tiro de posição elevada. Telhado. Segundo andar, talvez terceiro. Distância... quarenta, cinquenta metros. Calibre...

Ele pegou a pinça, extraiu outro fragmento.

- Calibre 7mm. Um gosto antiquado, porém elegante. Onde já vi isso...

O portão de ferro rangeu.

O som ecoou pelo necrotério como um gemido de parto.

- Fazendo hora extra de novo, Nolan?

A voz feminina veio da entrada, carregada de uma preguiça afetiva.

Dara Alice Venturini. Ou só Dara.

Jovem, estava fazendo estágio na delegacia. Tinha um rosto que carregava uma expressão de constante tédio e desinteresse, como se o mundo inteiro fosse uma palestra chata da qual ela não podia se levantar. Olhos de pôr do sol brilhavam com lampejos de ironia. Cabelos curtos castanhos, cortados num chanel bem formado.

Já estava sem uniforme, o horário dela havia terminado duas horas atrás. Vestia um macacão jeans desbotado, manchado de tinta, sobreposto por uma blusa verde-musgo da banda The Pression - uma banda local que ninguém fora do circuito underground conhecia e que ela defendia com fervor religioso. Um laço alto de cetim verde claro passava pela cabeça. A bolsa de couro sintético pendia no ombro.

- Estou sim, Dara - o homem suspirou, sem se virar. Os olhos roxos continuavam fixos no fragmento de metal. - Desde que a senhora Weber se afastou, as coisas têm ficado... bem movimentadas.

Ele ergueu o olhar, percorrendo os gavetões de aço inoxidável alinhados contra a parede. Gavetões fechados, todos com etiquetas recentes - nomes, datas, causas provisórias de morte.

A jovem franziu as sobrancelhas. Um arrepio subiu por sua espinha.

- Hm - ela fez um ruído não-compromissal. - Queria poder te ajudar mais.

- Não se preocupe. - Nolan finalmente se virou, e seus olhos roxos encontraram os âmbar de Dara através da máscara cirúrgica. - Nós dois trabalhamos em pólos opostos da vida, não é? Você fazendo seu trabalho acaba... diminuindo o meu. - Uma pausa. - Haha.

A risada foi seca, cortês, vazia.

Dara correspondeu com uma risadinha meio forçada (daquelas que a gente dá quando quer parecer educado). Ajeitou a bolsa no ombro.

- Você vai naquela festa que a Liz e o marido dela vão fazer hoje? - perguntou, mudando de assunto com a sutileza de um martelo. - Arthur me chamou. Tô pensando em chamar o pessoal também. Apesar que o Lírio deve tá na roça num dia desses...

- Infelizmente, não. - O sujeito já se virava de volta para a maca, as mãos enluvadas retomando o trabalho com a precisão de quem nunca parou. - Vou passar a noite aqui. Tenho mais dois corpos pra fazer relatório antes do amanhecer. - Mais uma pausa. A pinça suspensa no ar. - Mas já mandei um presente pra eles.

- Entendi... - Dara hesitou na porta. - Bom, boa noite então.

Ela já estava com um pé fora quando a voz dele a chamou de volta.

- Ah, Dara.

Ela olhou por cima do ombro.

- Se um garoto moreno... "paçoca" - ele fez aspas no ar com os dedos enluvados - estiver na porta me esperando, pode falar pra ele ir direto pra casa. Ok?

- Ok. Ok, ok. - a jovem assentiu, confusa, mas sem perguntar.

Ela saiu.

O portão de ferro rangeu novamente.

O silêncio retornou.

Nolan ficou imóvel por um longo momento, apenas respirando. O som do seu próprio coração ecoava dentro da touca cirúrgica, dentro da máscara, dentro daquele crânio que guardava segredos que nenhum relatório pericial capturaria.

Ele olhou para o corpo na maca.

O homem sem metade da cabeça.

- Quem foi que te calou? - murmurou Nolan, a voz agora sem a suavidade profissional, agora mais grave, mais pessoal. - E por quê?

Ninguém respondeu. Os mortos eram educados, mas não eram falantes.

Ele levantou o olho para o canto da parede.

E viu.

Por apenas um segundo - talvez menos, talvez um piscar de olhos, talvez uma alucinação de quem está há quatorze horas sem dormir.

O crânio de um corvo.

Pendurado no ar.

Balançando como um pingente ao vento.

Nolan prendeu a respiração.

O crânio desapareceu.

- ...Essa noite vai ser longa - sussurrou.

A pinça voltou ao trabalho.

O relógio na parede marcava 20h31.

Quarta-feira 05/06, - 00h40

Em algum lugar da cidade, em algum beco escuro onde as sombras se manifestavam, alguém vestia uma capa e ajustava uma máscara.

O corvo estava observando.

O corvo sempre estava observando.