Chapter Text
- Você não tem o direito de fazer isso, Severus!
Os olhos negros de Severus Snape se fixaram rapidamente no rosto magro e encovado daquela que ele, até então, considerava uma amiga, antes de responder com frieza na voz:
- De acordo com o testamento do próprio Dumbledore, todos os pertences dele agora fazem parte do patrimônio de Hogwarts. E, na qualidade de diretor, eu tenho total autonomia para fazer o que quiser com estas… coisas.
A expressão de Minerva McGonagall se transformou numa careta de desgosto:
- Apesar de tudo, eu realmente achava que você demonstraria o mínimo de respeito. - ela confessou com amargor na voz.
Snape desviou o olhar do de Minerva, antes de responder:
- Se não quiser presenciar o que estou prestes a fazer, recomendo que vá embora agora, Professora McGonagall. - ele sugeriu, sombrio.
A bruxa apertou os lábios, desgostosa, antes de dar as costas e partir do gabinete do diretor, deixando-o sozinho com aquele amontoado de livros e objetos. O poleiro dourado onde Fawkes costumava descansar estava vazio, assim como a cadeira onde o diretor costumava se sentar, que agora, oficialmente, pertencia a ele.
Um vento frio atravessou os fundos da sala numa corrente, açoitando as costas de Snape através da capa preta; o bruxo deu alguns passos na direção de uma estante, tocando suavemente um dos delicados objetos de prata de Dumbledore e ele emitiu um ruído estranho, como se adivinhasse as suas más intenções. No segundo seguinte, os dedos magros de Snape esmagaram o objeto como se ele fosse feito de cristal e, por um segundo, toda a raiva que sentia se suavizou.
- Veja só o que eu faço com todo esse lixo! - Snape grunhiu numa fúria incontida, enquanto esmagava objetos aqui e ali, olhando desafiador para o quadro de Dumbledore pendurado por trás da cadeira.
Mas, apesar de toda a destruição, o mago retratado pela pintura apenas ressonava placidamente.
- Você nem se importa, não é mesmo? - Snape perguntou, sem resposta.
A esta altura, Snape já estava com vontade de destruir tudo o que encontrasse pela frente. De rasgar os livros, de pisar nos objetos, de queimar os pergaminhos… a raiva aprisionada dentro dele parecia fazer força para sair e ele se viu de repente trêmulo e incapaz de respirar, sufocado pelos seus próprios sentimentos.
Jamais perdoaria Dumbledore! Jamais!
Mas, por algum motivo, ao invés de cumprir sua própria promessa de destruir tudo o que pertencesse à Albus Dumbledore, Snape se viu balançando a varinha para que cada um dos pertences do antigo diretor se encaixasse por conta própria em grandes caixas que ele havia acabado de transfigurar. Em questão de minutos, a sala foi se esvaziando e as caixas se empilhando umas sobre as outras. Os livros iriam para o acervo da Biblioteca, o resto… o resto não importava.
Não foi com muita surpresa que Snape reparou que Dumbledore era quase um acumulador. A quantidade de cartas antigas e pergaminhos inúteis era bem assustadora, mas Snape não precisaria olhar uma por uma para saber que eram completamente inócuas, afinal de contas, Dumbledore não era estúpido. Ele sabia que ia morrer e com certeza havia tratado de destruir absolutamente tudo o que fosse importante.
Ou talvez nem tudo.
Um livro de Poções chamou sua atenção por algum motivo. 'Estudos Avançados no Preparo de Poções de Libatius Borage'. Os dedos de Snape bateram na lombada quando ele se deu conta de que era a primeira edição; ele puxou aquela raridade para si, curioso, e pôs-se a folhear as páginas amareladas do livro. Não havia anotações e ele parecia em perfeito estado, apesar de bem antigo.
Exceto por um suave traço de magia negra que emanava de suas páginas amareladas.
Seria imperceptível para qualquer um, menos para ele. Snape aproximou o livro do nariz. Até o cheiro era inconfundível. Retirando sua varinha das vestes, ele tocou levemente na capa com ela e a reação foi imediata: uma fumaça escura envolveu o livro, como se quisesse protegê-lo de alguma coisa, ou proteger alguma coisa que estivesse dentro do livro.
Um feitiço selante? Que tipo de coisa faria Dumbledore recorrer à magia negra para poder esconder? Não parecia algo que o antigo diretor faria.
Mas, desde sua morte, tantas coisas que Snape pensou que Dumbledore jamais faria foram reveladas… ele próprio era testemunha. Enquanto todos pensavam que o pobre diretor havia caído vítima de um ataque surpresa de comensais da morte, a verdade era que aquela velha raposa havia desenhado todo o cenário da própria morte com riqueza de detalhes e, de quebra, escolhido justamente ele para atuar num dos papéis principais.
Velho desgraçado…
De repente, Snape se sentiu na obrigação de descobrir o que poderia estar escondido por trás daquele livro aparentemente inofensivo e, empunhando sua varinha com mais firmeza, recitou alguns feitiços para tentar abrir o lacre mágico, sem sucesso. Aborrecido, Snape fechou a cara e tentou de novo, dessa vez com magia negra, mas, o máximo que conseguiu foi ver um brilho estranho escapar de uma das páginas.
Havia alguma coisa escondida ali. Agora ele tinha certeza.
Respirando fundo, Snape pressionou a varinha contra a lombada do livro, pronunciando palavras mágicas tão imundas que ele próprio não pôde evitar um arrepio de tensão. O livro pareceu se encolher nas suas mãos e uma nuvem malcheirosa se espalhou por todo o local.
Só então os dedos de Snape se afundaram na lombada e tatearam o espaço interior do livro até encontrar alguma coisa e puxá-la para fora.
Intrigado, ele encarou o pedaço de pergaminho bastante envelhecido que havia acabado de retirar do livro por alguns instantes antes de desdobrá-lo cuidadosamente.
- Consegui invadir seu esconderijo. - Snape falou para o quadro de Dumbledore, triunfante, sem contudo obter qualquer resposta.
Um burburinho discreto vindo dos quadros dos demais diretores de Hogwarts se fez ouvir e depois, silêncio. O Dumbledore do quadro parecia profundamente adormecido.
Snape finalmente olhou para a caligrafia delicada do falecido diretor durante vários segundos, reconhecendo ali os ingredientes de uma poção.
Uma poção para…
Snape dobrou o papel novamente.
Por alguns dias, ele simplesmente chutou a lembrança da poção toda a vez que ela pipocava em sua mente, a princípio desacreditando que ela realmente funcionasse. Mas, com o tempo, uma esperança tola começou a crescer no seu peito e ele foi se deixando seduzir pela ideia de aquilo ser real. Afinal de contas, apesar de muitos considerarem Dumbledore um louco, um excêntrico, só os tolos não sabiam o quanto ele era brilhante. Se algum mago na face da Terra um dia havia sido capaz de fazer uma poção dessas, esse alguém com certeza seria Dumbledore.
De noite, deitado em sua cama durante um dia exaustivo na direção daquele maldito lugar, a mente de Snape começava a divagar e ele se permitia apenas imaginar o que aconteceria se ele tomasse aquela poção.
Ainda assim…
Snape tinha muito a fazer. Muito a proteger. E muito pouco tempo.
Determinado a manter-se longe do gabinete de Dumbledore e de tudo o que um dia pertencera a ele, Snape levantou-se da cama, desejando mais do que tudo esquecer que aquela poção sequer existia.
A segunda vez que Snape olhou para o pedaço de pergaminho, foi para se convencer que, mesmo que aquela poção funcionasse, ele jamais seria capaz de prepará-la.
Faltava um ingrediente. Um ingrediente essencial.
Uma voz no fundo da sua mente sugeriu que ele desse uma olhada nos pertences de Dumbledore que ele ainda não havia encaixotado e foi só por isso que Snape ignorou completamente um sentimento ruim de que tudo aquilo não passava de uma loucura impraticável para então revirar o armário de ingredientes do acervo pessoal do ex-diretor. Enquanto remexia os inúmeros frascos coloridos, Snape não pôde deixar de pensar que McGonagall ficaria ainda mais indignada se o visse naquele momento. Indiferente a tudo, ele forçou a vista para enxergar melhor o que estava escrito nos rótulos, alguns deles claramente intocados há décadas.
- Por que eu estou fazendo isso? - Snape se perguntou a si mesmo, enquanto afastava uma dezena de frascos com a mão para poder ver o que havia por de trás deles.
- De fato. - uma voz muito conhecida se fez ouvir pelas suas costas - Mas que tolice, Severus. Você não acredita mesmo que eu guardaria uma preciosidade dessas no fundo de um armário, acredita?
- Cale-se! - Snape respondeu, empurrando uma fileira de frascos para um canto, que bateram uns nos outros e fizeram um barulho muito próximo ao de vidro rachando.
- Você está perdendo tempo precioso. - o Dumbledore do quadro insistiu ao ver que Snape não lhe dera a devida atenção.
- Eu já fiz todas as coisas que você me pediu. - Snape respondeu, indiferente - Algumas delas contra a minha vontade, devo dizer.
- O que você está querendo fazer… não é sábio. - Dumbledore alertou.
- E você? - Snape rebateu, trincando os dentes - Imagino que tenha criado esta poção num momento de extrema sapiência, não é verdade?
Alguns segundos de silêncio se seguiram àquela pergunta, durante os quais Snape continuou a revirar os frascos furiosamente, agora sem nenhum cuidado, até ter total certeza de que Dumbledore não estava mentindo quando havia dito que as lágrimas de fênix não estavam lá.
- Você sabe onde está! - Snape disse, olhando fixamente pra o quadro, enquanto sua mão trêmula apertava a porta aberta do armário.
Não era uma pergunta.
- Severus… por favor. - Dumbledore pediu mais uma vez e aquelas palavras suaves fizeram algo se revirar violentamente dentro de Snape. Raiva e desespero se misturaram e subiram pelo seu estômago até a garganta num nó agonizante.
- Eu quero salvar a minha alma! - Snape esbravejou, fechando a porta do armário com tanta força que os frascos dentro dele tilintaram. Dumbledore não disse nada, apenas o encarou, esperando ele se recompor. E quando Snape completou a frase, de fato o seu tom estava bem mais contido - Não espero que você entenda. Ela nunca esteve entre as suas prioridades!
- Pelo contrário, Severus. Eu sempre me preocupei…
- Mentiras! - Snape o interrompeu - Me entregue! - E como, ainda assim, Dumbledore hesitava, ele insistiu - Você me deve!
Mas Dumbledore não precisou dizer nada. Snape já havia entendido. Era óbvio demais! Que guardião melhor haveria para um ingrediente tão precioso do que… o próprio Dumbledore?
Snape se aproximou do quadro com sua varinha em punho, franzindo a testa de pura irritação antes de recitar algumas palavras mágicas sombrias, para logo depois enfiar o braço na tela até o cotovelo e de lá retirar, sem qualquer resistência, um frasco transparente contendo as lágrimas cristalinas de fênix.
- É o suficiente para apenas uma poção. - Dumbledore explicou, parecendo preocupado - E o preparo é bem delicado. Se você falhar…
- Eu não vou falhar. - Snape o cortou, ríspido.
- Receio não poder dizer que torço pelo seu sucesso, meu amigo.
- Não me surpreende. - Snape respondeu, muito frio, antes de guardar o frasco nas próprias vestes.
Com as sobrancelhas franzidas, Snape esmagou os insetos.
- Muito cuidado com este último ingrediente, Severus. - o Dumbledore do quadro o aconselhou, com uma expressão muito séria - Você precisa usar exatamente o número de insetos descrito na receita. Não vá colocar tudo a perder!
E, surpreendentemente, as sobrancelhas de Snape se uniram ainda mais. Mal humorado, ele juntou a quantidade exata do pó que havia acabado de macerar cuidadosamente e o juntou à mistura borbulhante do caldeirão. Mexendo com todo o cuidado, o líquido espesso e de aparência viscosa logo adquiriu um tom aveludado de vermelho.
- Perfeito! - Dumbledore comentou, satisfeito - Absolutamente encantador.
Alguns segundos de silêncio se seguiram:
- A cochonilha não era tão essencial assim, era? - Snape perguntou, olhando feio para Dumbledore, sem se surpreender quando ouviu uma risadinha displicente como resposta.
Não importava.
A única coisa que realmente era do interesse de Snape era que a poção finalmente estava pronta.
- Isso funciona mesmo? - Snape perguntou, cético, após verter um líquido num frasco.
- Talvez não do jeito que você gostaria que funcionasse. - o quadro respondeu, atraindo um olhar antipático em sua direção.
- Pelo visto você é totalmente incapaz de me dar uma resposta simples e direta como sim ou não, não é mesmo?
- Todas as respostas que lhe dei na vida me exigiram cautela. - Dumbledore respondeu, suavemente - E esta não foi uma exceção.
Snape olhou para o quadro por alguns segundos antes de perguntar:
- Se eu beber isso, o que vai acontecer exatamente? - Snape perguntou para logo depois achar que precisava ser um pouco mais específico para evitar ao máximo mais uma resposta evasiva - Suponho que não será uma experiência corpórea…
- De fato não será. - Dumbledore respondeu, parecendo pouco disposto a dar maiores explicações.
- Você não pode me deixar no escuro! - Snape protestou, irritado.
Dumbledore balançou suavemente a cabeça e seus dedos se uniram enquanto ele parecia refletir um pouco sobre as palavras que estava prestes a dizer:
- Sua mente tomará emprestado o corpo de alguém.
- De alguém? - Snape perguntou, desde já detestando a ideia - Mas… quem?
- Em circunstâncias normais, você mesmo. - Dumbledore respondeu - A menos que…
- A menos que…? - Snape quis saber.
- A menos que, por algum motivo, o seu corpo esteja indisponível.
- Como por exemplo?
- Como por exemplo, se você ainda não tiver nascido, ou já estiver morto.
Snape balançou o frasco de vidro com a única dose da poção e ela soltou um brilho diferente:
- Não preciso me preocupar com isso então, pois eu estava perfeitamente vivo na época em que quero ir - determinou - e, falando nisso, como saberei que esta poção vai realmente me levar para onde eu quero? Ou seria melhor dizer para quando eu quero ir?
- Quanto a isso, não se preocupe. Esta poção o levará exatamente para quando e onde você precisa ir. - Dumbledore garantiu, para logo depois emendar - Mas preciso te alertar que ela não é completamente segura.
Snape olhou para o quadro, desconfiado:
- O que quer dizer com isso?
- Quero dizer que, por inúmeros motivos, eu achei por bem deixá-la de lado.
Snape olhou para o quadro, esperando que ele seguisse adiante, mas como Dumbledore permaneceu calado, ele falou, ranzinza:
- E é claro que você não vai me dizer quais foram esses motivos, não é mesmo?
- Meu caro amigo, devo lembrá-lo de que sou apenas um quadro. Desafortunadamente, não possuo todas as respostas.
Snape olhou para Dumbledore, a princípio com irritação, mas logo pensou que, para variar um pouco, ele bem que poderia estar dizendo a verdade, pois todas informações que as pinturas possuíam eram gravadas pelos próprios retratados por meio de um feitiço. Ele próprio havia deixado muita coisa sobre si mesmo de fora ao enfeitiçar o quadro que um dia seria pendurado numa das paredes daquela sala, junto com os demais diretores.
- Então você não sabe os motivos de uma poção tão poderosa ter acabado esquecida e selada com magia negra dentro de um livro, não é verdade? - Snape comentou, soturno.
- Receio que não, Severus. - Dumbledore respondeu num tom de voz muito neutro, que, logo em seguida, se transformou em vívida curiosidade - Mas sei de outras coisas tão importantes quanto. Como, por exemplo, o que você precisaria fazer para retornar.
- Entendo…
E foi a vez de Dumbledore esperar que Snape continuasse a falar e ter suas expectativas frustradas:
- Você não vai me perguntar? - a pintura quis saber ao ver os dedos de Snape acariciarem a madeira da mesa onde a poção se encontrava.
Mas, ao invés de responder, Snape se limitou a dar um meio sorriso e, sem desviar os olhar de Dumbledore, tomou para si o recipiente de vidro que continha a poção e o virou de uma só vez na boca, engolindo todo o seu conteúdo.
Ao ver aquilo, Dumbledore abriu a boca, mas não conseguiu dizer coisa alguma. E, mesmo sabendo que não estava diante do verdadeiro diretor, mas sim de um mero simulacro mágico, ainda assim o olhar de Snape para a pintura era o mesmo de uma criança que havia desafiado uma ordem direta do seu pai. Já sentindo os primeiros efeitos da poção, Snape finalmente respondeu a pergunta que o quadro havia feito a ele:
- Não tenho intenção de retornar.
E, no momento em que disse isso, a visão de Snape começou a escurecer.
- Ei, McLaggen! McLaggen! Ei! Acorda, cara! Eeeeei!!
- Parece que ele apagou mesmo…
- Olha, se isso é alguma brincadeira, é melhor parar! Não tem graça nenhuma!
- Que brincadeira, cara? Ele acabou de tomar um balaço pelas costas e caiu da vassoura. Não sei nem como é que tá vivo!
- Foi tudo culpa do Nott! Ele fez de propósito! Ah, mas isso não vai ficar assim não!
- Alguém chama os diretores da Grifinória e da Sonserina? Isso foi longe demais!
- Não é melhor levá-lo para a enfermaria?
- Gente, ele não acordou ainda? Tem certeza que não morreu?
- Ai, cala a boca!
Snape abriu os olhos devagar, sentindo seu corpo inteiro explodir de dor, sem conseguir reconhecer uma única das muitas cabeças que se debruçavam sobre ele.
- Acordou!
- Que susto você nos deu, McLaggen! Por favor, não faça isso de novo!
Snape abriu a boca, tentando colocar os pensamentos em ordem, mas a dor era demais e tudo estava muito confuso. Que lugar era aquele e por qual motivo ele estava sendo chamado de McLaggen?
- O quê está acontecendo? - ele perguntou, confuso, estranhando o seu próprio tom de voz.
- Ah, nada demais. Você só tomou um tombo bem feio, mas acho que vai sobreviver.
- Você tem que falar o que aquele idiota do Nott fez! Os diretores das duas casas com certeza vão se reunir para discutir sobre isso e se você não for até lá, eles só vão ouvir a versão do Nott!
- Como assim? Ele não pode ir a lugar nenhum além da ala hospitalar! Eles que ouçam a versão dele por lá!
Okay… por mais que fosse difícil, Snape precisava colocar os pensamentos no lugar. Sua última lembrança era de estar gabinete do diretor, bebendo todo o conteúdo do líquido vermelho viscoso da poção inventada por Dumbledore, e agora ele estava deitado no chão de uma quadra de Quadribol, com o corpo todo doendo, cercado de alunos da Grifinória.
Isso quer dizer que a poção havia funcionado?
Não completamente, ao que parecia. O quadro de Dumbledore havia garantido que ele despertaria no seu próprio corpo, por que então ele estava no corpo de outra pessoa? Com certeza algo tinha dado errado, pois ele estava perfeitamente vivo e saudável, ainda que bem mais jovem, durante a época que desejava voltar. Então por que ele estava no corpo de outra pessoa, pior ainda, de todas as pessoas do mundo, por qual motivo ele estava justamente no corpo de um grifinório?
Com dificuldade, sentou-se devagar, vendo tudo rodar a sua volta.
- Eu estou bem. Não preciso ir a lugar nenhum e nem ver ninguém. - Snape falou, fracamente, mas ninguém pareceu muito convencido.
- O que você tá falando, cara?! - alguém que Snape não fazia ideia quem era falou, enquanto o ajudava a puxá-lo do chão - Deixa disso! Nós precisamos reportar tudo o que aconteceu neste jogo! A Sonserina só ganhou porque te nocautearam bem no instante em que você ia pegar o Pomo!
Mas Snape não queria saber de nada daquilo. Ele tinha coisas muito mais importantes para resolver. O que ele realmente precisava naquele momento era arrumar um jeito de descobrir se realmente havia voltado para 1981. E, caso estivesse na época certa, quanto tempo ele teria para agir.
- Já disse que não quero ver ninguém! Me deixa em paz! - Snape respondeu, mal humorado, puxando o seu braço para longe do toque do rapaz que tentava ampará-lo.
- Por Merlin! Você tem certeza que está bem, McLaggen? Você tá tão esquisito…
Um outro grifinório correu na direção deles, Snape não gostou nada do jeito que o cabelo do garoto apontava para todos os lados:
- Vem comigo, McLaggen! - ele exigiu.
- Eu não… - Snape começou a protestar, mas foi bruscamente interrompido.
- Deixa de bancar o herói e vem de uma vez! - o sujeito falou, puxando-o pelo braço - Os diretores já foram avisados do que aconteceu e estão te esperando!
Por mais que parecesse até irônico ver sua eterna rival do Quadribol finalmente do mesmo lado que o dele, tudo o que Snape não queria era reencontrar a versão rejuvenescida de Minerva McGonagall que, desde aquela época, já era a diretora da casa Grifinória. Querendo escapar daquela situação, ele olhou em volta, procurando por algum rosto conhecido, sem o menor sucesso. Ainda sendo puxado contra a sua vontade, Snape adentrou o castelo e seus olhos se arregalaram ao ver que o salão principal estava todo decorado para o Halloween.
- Hoje já é dia 31? - Snape perguntou ao outro bruxo, alarmado.
- Bateu forte com a cabeça, né? - o rapaz perguntou e sua voz lhe pareceu desagradavelmente familiar - Hoje mesmo estava se lamentando porque vai ser seu último banquete de Halloween em Hogwarts e agora isso?! Ah, mas o Nott tá muito enganado se pensa que vai se safar dessa!
O coração de Snape bateu mais forte. Era tarde demais para evitar que Peter abrisse aquela maldita boca! A essa altura, o Lorde das Trevas já sabia aonde Lily estava escondida! Snape tinha muito pouco tempo a perder e tudo o que ele precisava fazer agora era arrumar um jeito de sair daquele lugar e chegar a tempo em Godric’s Hollow!
Salvá-la! Ele precisava salvá-la! A todo custo! Se ele fosse para lá agora, com certeza chegaria antes de Voldemort e a arrancaria daquele lugar.
E ela estaria viva!
Alheio ao turbilhão de emoções que Snape sentia naquele momento, o outro rapaz continuava a puxá-lo pelo braço, obrigando-o a subir a escadaria de pedra. Sem conseguir se soltar, ele tateou suas vestes de Quadribol em busca de uma varinha para estuporar aquele imbecil e dar um jeito de fugir dali, mas não conseguiu encontrar nenhuma.
- Eu sei… eu sei… você ainda tá nervoso! - o rapaz falou enquanto o puxava - Mas também não precisa tremer desse jeito, amigão! Já passou e você está bem! - e depois de alguns segundos de indecisão - Você está bem, não está?
Snape teve vontade de chutar a canela daquele indivíduo e dizer que não, ele não estava nada bem, mas o rapaz de cabelos revoltados parou diante da penúltima porta e, antes que ele pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, bateu na madeira sólida com energia e entrou sem esperar autorização.
Lá dentro, apoiado no parapeito da janela, ao invés da Professora Minerva, apenas um homem muito alto e magro, virado de costas para eles. Snape franziu as sobrancelhas ao reparar nos seus longos cabelos acaju, muito brilhantes e também no terno acinzentado que ele vestia. Alheio à toda a movimentação, o homem olhava a paisagem, provavelmente acompanhando de longe a movimentação dos alunos após o jogo de Quadribol.
- Professor Dumbledore. O McLaggen tá aqui!
O coração de Snape congelou em seu peito e ele abriu a boca de espanto ao ver Albus Dumbledore se virar devagar em sua direção, parecendo muito vivo e mais jovem do que nunca! Tremendo dos pés a cabeça, reconheceu aquele mesmo sorriso, o mesmo olhar azul cintilante, a mesma expressão de absoluta tranquilidade.
- Ah, muito obrigado por trazê-lo, Potter. - ele falou e era, sem dúvidas, a voz de Dumbledore, um pouco menos rouca, talvez, mas ainda assim, inconfundível.
Sentindo todo o seu corpo formigar de puro desespero, Snape olhou para Dumbledore, olhou para o sujeito que acabara de ser chamado de Potter, e depois voltou a olhar para Dumbledore, absolutamente incrédulo.
Alguma coisa estava muito, muito errada!
